Histórias desautorizadas/33: Gostos paramusicais

Gostos paramusicais

Fulano tem gostos não que-se-possa-dizer, em boa-verdade, bem definidos, Fulano-de-tal tem gostos musicais — definitivos.

Por partes: muito pouco do que existe da música correntemente comercial pop-rock. Por exemplo: nada de Justin Timberlake, nada de Lady Gaga — horror! —, nem de Madonna tão-pouco, ou do entretanto malogrado Michael Jackson. Todos muito superficiais e, além-do-mais, muito ruidosos. O muito ritmo na música, ou a muita intensidade, são coisa execrável — daí que nem Beethoven caiba no cânone musical de Fulano-de-tal. Mas não há-que-ver que só o ruído, ou o ritmo, ou a intensidade sejam critérios. Há outro e não despiciendo critério, que é o da eventual morbosidade, ou seja: tudo o que induza alguma depressão, tristeza que seja, está condenado a não ser escutado. Há muita gente neste lote, desde essa máquina depressiva que está-a-ser Lana del Rey, até, em recuo histórico, essa melancólica sem-lugar que esteve-a-ser Françoise Hardy. E neste lote se incluem os piores-de-todos, esses para-sempre-execrandos Radiohead, que acrescentam à depressão um inaudível experimentalismo — esquizóides do pior-que-há. Claro que Marin Marais, de entre os clássicos-barrocos, que arda para-todo-o-sempre, sem ninguém que o escute, nos mais escuros círculos dantescos-infernais. Enfim dos Beatles Fulano-de-tal nunca gostou, sempre os achou tontos, e outro tanto, quanto a tontos, os Rolling Stones. Tontos, ‘tá-bem-de-ver, todos os barulhentos, desde os já-desouvidos-ácidos Deep Purple até aos Metallica e etc.

No cânone quem estão? Poucos, esses poucos ao mesmo tempo suaves e alegres, sem serem tontos, está-claro. Fulano-de-tal gosta, saberá-lá-ele-porquê, dos Depeche Mode. Apesar de serem muito suaves, não gosta em absoluto dos Massive Attack — mas tendo o grupo adoptado este nome-de-guerra, não é de estranhar que produza liminar rejeição…

Não ouve jazz — “música de epilépticos”. Nem música étnica, world music — odeia o Sul em geral, países de sol e de subdesenvolvidos barulhentos. Há tipos de música, diz ele, que são coisa absolutamente inaudível: o tango, o flamenco, o fado, a quizomba… Enfim muita coisa há de que gostar: a música céltica-suave, por exemplo: comovem-no as harpas celestiais. Adora cantatas barrocas com belas vozes barítonas, sopranas e tenórias… ele mesmo, que cantou num coro, trauteia tenoriamente as árias mais melódicas…

É difícil continuar a minudenciar estes gostos e desgostos musicais, mas enfim: Fulano-de-tal tem critérios, embora tão estritos que lá terá de abrir algumas excepções, não sei.

Estareis ajuizando que o fulano é “un parfait imbécil” (“um perfeito imbecil”), na fórmula intransitiva baudelairiana, mas eu faço-vos notar que, ao fazerdes tal juízo, vos autoelevais à categoria de um Baudelaire, ou de um deus de algum Juízo Final, o que é manifestamente um exagero. Mais caridosamente, podíeis inferir que o fulano é um comum neurótico, desses que assombram a vida de com quem convivem; ou, mais consideradamente, que é um tipo sofisticado, de altos critérios artísticos em geral e musicais em particular. Aliás Fulano-de-tal não só tem critérios superiores como os projecta na sua consorte que, essa, tem gostos musicais muito alargados e diversificados. Mas a ela não lhe é dado usufruir em casa livremente a audição de “coisas-em-forma-de-música” — só quando o seu fulano não está ela se permite ouvi-las, e tem-nas escondidas para evitar conversas penosas sobre gostos musicais.

Fulano-de-tal tem altos critérios e há que respeitá-los, mesmo que não se percebam bem. Por exemplo, gosta de réquiens, embora execre toadas tristes e, em particular, as de Marin Marais. E vai entoando êxitos dos Back Street Boys e de Sam Smith, embora os considere tontos, sobretudo os primeiros. Em todo o caso, é um manifesto exagero, como defendi acima, tê-lo por imbecil. E mesmo que, por insensível comodidade, o puséssemos nesta categoria pejorativa, deveríamos questionar-nos sobre o que seria deste nosso mundo florescente sem o concurso da imbecilidade. Esta questão não é retórica: afigura-se-me tão impertinente e de impossível resposta que não me atrevo a tentar sequer abordá-la frontalmente.

Nota final:

Cartesius considerava que a inteligência é a coisa mais bem distribuída neste mundo, porque a todo o ser humano lhe parece estar provido dela. Eu creio que, simetricamente e em negativo, a imbecilidade é a coisa mais bem não-distribuída neste mundo, porque todo o ser humano crê não ser provido dela — até os imbecis.

06.09.2015

António Sá

Histórias desautorizadas/32: Uma família impossível

Uma família impossível 

Passando pela paragem de autocarros, à saída da escola, o psicólogo-escolar viu aí um seu paciente, miúdo de oito anos, e parou um instante para se despedir até-outro-dia, conversar qualquer pouco. O miúdo, vivo e palrante, logo explicou ao seu psicólogo que a irmã se atrasava em vir buscá-lo, estaria a namorar com o namorado, e por tal atraso o pai havia de castigá-la com uma grande tareia. O psicólogo ficou com os ouvidos a arder e as pulsações aceleradas. Era coisa que não esperava ouvir — ainda menos fora do gabinete onde, uma vez por semana, ouvia esse seu pequeno paciente. Questiona-o já um pouco — se o pai costumava bater na irmã! O miúdo ponderou e foi confirmando: “Às vezes”. E batia-lhe a ele? Não, a ele não, ele era mesmo filho do seu pai, gostava muito do pai, era seu pai-mesmo. Na inquietude em que se encontrava, o psicólogo quietou um tanto, mas ficou a remoer aquela informação de um pai-agressor, e despediu-se do miúdo, que ficou a mirar a estrada por onde viria o autocarro.

O facto de este miúdo ser mesmo filho daquele putativo pai-agressor-que não-do-filho merece um esclarecimento, que vai ser dado pelo alinhamento dos dados familiares:

1) tal pai era só pai deste miúdo, e a companheira com quem vive hoje é mãe também deste miúdo;

2) mas esta companheira actual deste pai, sendo ambos entre-si não casados, fora mãe em consórcio anterior de duas filhas, uma maior, de vinte anos, outra menor, de quinze, e esta vivia com a família, não aquela outra filha maior, que já constituíra família própria e morava longe.

Esteja assim tudo explicado, e seja esta adolescente de quinze anos, filha desta mãe mas não deste pai, aquela que padeceria grandes tareias de seu padrasto, em todos os sentidos de “padrasto”. Diz-se correntemente “sorte madrasta” no pior dos sentidos da sorte, nunca ouvi, mas vem a calhar aqui a “sorte padrasto” ou, sem ironia e com acordo de género, o “azar padrasto”.

Em ulteriores sessões, o desconfortado psicólogo ficou a saber, do palrador menino-paciente, que este surpreendera seu pai-mesmo com a primeira filha de sua mãe num enlace amoroso. O psicólogo ficou doente de ouvir isto, e traçou de seguida este cenário: desordenado pai-condescendente com o filho que é seu, única sua paternidade, e daí este rapaz imaginoso, indisciplinado, hiperactivo; desordenado padrasto-agressor de uma adolescente; e desordenadíssimo paraincestuoso padrasto de uma jovem-adulta, com a qual se desencadeia numa luxúria-iníqua.

O psicólogo ficou gravemente enfermo com este caso, e pensou, remoeu, obsessionou sobre o quê que fosse o quê a-ser-assim; e o que fazer sobre o quê que tudo fosse.

Nota final:

Convidado a fazer um desenho sobre o que teria acontecido à irmã no atraso-em-ir-buscá-lo, o miúdo desenhou-a ser atropelada por um autocarro; instado a explicar-se, ele disse que a irmã se atrasava sempre muito, estava quem-sabe com algum namorado-escondido, ou tinha sido atropelada quem-sabe por um autocarro, ou quem-sabe um dos rapazes-crescidos, por causa da droga, a estava a ‘saltar… Vendo bem, pensou o psicólogo, tudo valia: também podia ‘panhar porrada do pai por se atrasar, só que nunca tinha sido, mas podia ser… O psicólogo achou que o miúdo desenvolvia delírios-castigadores sobre esta sua meia-irmã. E quanto à meia-irmã mais crescida, essa que já constituíra família? Tinha-a mesmo visto abraçada com o pai? — Visto, visto, não… mas se calhar o pai-mesmo podia gostar de estar com ela, era tão bonita!

 

Nota mais-final:

Há, e a imprensa o noticia e a estatística o numera, multiplicidade nas violências domésticas e nos abusos sexuais. Quanto aos adultérios, os intrafamiliares e os extrafamiliares, não sei se estão quantificados, e penso tanto nos adultérios objectivos quanto nos subjectivos. Assim esta história muito desautorizada e muito disfarçada não pretende ser exemplo de coisa nenhuma, mas também existem as crianças que, amando os progenitores, lhes causam danos por excesso de projecção imaginativa.

28.10.2014

António Sá

Histórias desautorizadas/31: Uma história erótica

Uma história erótica 

 

O dia me desatendia para não captar o olhar que, da ciência intuitiva de não-olhar mas sentir-ser-visto, esse rapaz me fixara. No instante a seguir, quando levantei a cabeça, vi-o desfazer o movimento, curvatura do pescoço que lhe permitira olhar-me: já seguia em frente o seu caminho. Posições nossas relativas propiciavam o não-olhar assim destrocado. Que ele passava e eu estava muito sentado e pascente à mesa de uma pequena esplanada interior, rés-do-chão de Centro Comercial, dos muitos pequenos Centros que existem na cidade e vão sobrevivendo, nem todos.

Eu inclinava o tronco para a mesa, manejava o garfo e a faca no acto de atacar o prato de confecção honesta que o empregado me servira. Porque nesta história sem autorização eu estava lá, nem em todas estarei, nesta estava. E o rapaz que passara e eu percepcionei-em-última-instância já depois de me ter fixado, ia desaparecendo por trás de uma coluna, seguia pelo corredor-aberto, ao longo do alinhamento de mesas da esplanada, corredor de acesso ao water-closet masculino, mais ao fundo. Para aí o rapaz ia, deduzi eu preso à garfada de arroz solto. Entretanto ia ligeiro, na peugada do jovem, um homem semiobeso. Imaginei que poderia vir a haver alguma acção homo, se o jovem se dispusesse a isso, embora aquele water-closet, ampliado e tornado confortável aquando da renovação do Centro Comercial, já não fosse o lugar estreito e furtivo de actividade homo que fora há tempos. Mas podia acontecer, por coincidência de pessoas, confluência casual de desejos e/ou necessidades urgentes. Abro um parêntese para explicar quanto esta fórmula e/ou decorre do meu apreço pelo belo estilo funcionário.

Mas enfim, o que podia está de ver que não foi, porque o rapaz, dois-três minutos nem-tanto, regressava pelo mesmo corredor por onde fora, ligeiro e não seguro, talvez tema olhares indiscretos como o meu, que agora o vejo vir. Olha aéreo a atmosfera que a iluminação artificial ilumina. E… talvez ele esteja já vendo-sem-ver o que está a pensar-querer-ver: as determinações humanas são sondáveis, quase visíveis e predeterminadas no microssegundo que flui. Eu ocupava a mesa extrema do alinhamento-de-mesas… e ele, ao dobrar a esquina do corredor-aberto, dobrou-a rente a essa minha mesa de esquina e, a menos de um metro de distância, inclinando-se um nada e rodando a cabeça-aérea, fixou-me um olhar fixo-exacto, microssegundo de um olhar-apenas, olhos-nos-olhos, e logo seguiu ligeiro. Eu voltei, interdito e grato, ao meu prato honesto. Interpretando os olhos que olhara: há adjectivos e, escolhendo os que conheço para este olhar acontecido, selecciono os que valham interrogação, sobretudo estes, e outros: olhar interrogativo, inquisitivo, rogativo ou só curioso, concupiscente até, sem querer tirar vantagem de ser eu a escrever este desautorizado relatório, que julguei acabado neste olhar gratificante e logo perdido.

Mas “não há uma sem duas”, como se diz, com muita inverdade, porque em geral só há uma sem duas, mas neste caso tive ocasião de ver o mesmo rapaz outra vez, fazendo o mesmo percurso em direcção ao water-closet. Ia muito mais ligeiro e mais seguro e, virando rápido a cabeça, mirou-me a próxima décima de segundo, olhar opaco por trás de óculos-escuros, que trazia agora postos.

Interrompo aqui a acção, ensaio o esboço de retrato do rapaz. Estatura média, silhueta delgada, vestuário anódino: calças e camisa escuras, como quem se camufla para que ninguém o veja na cidade; rosto bem oval, banal, regularmente banal como o de qualquer rapaz regular e banal à sua medida, mas o olhar intenso e preciso, olhar de caçador. Andaria pelos alguns vinte anos, pode que muitos, e enfim o que mais o caracterizava era o não-cabelo que tinha na cabeça. Cabeça-rapada, não por convicção, creio, mas para obviar uma coroa de calvície-precoce.

Agora, a acção. Captei aquele desolhar de lentes escuras; por um microssegundo cri que o olhar inda que escondido me provocava a segui-lo, mas no mesmo movimento em que me olhava o rapaz olhou mais para trás, rodando de noventa graus o pescoço, se é possível — tudo vem a poder o corpo — e rodou esse tanto para ver, certificar-se, encorajar outro rapaz que lhe ia na peugada. Retrato imediato do que há a ver: um rapaz igualmente alto-médio como o primeiro, cabelos escuros, perfil perfeito, tanto o do rosto barbeado como o do corpo enxuto, belo perfil mediterrâneo, perfil de Adónis à-flor-da-vista, olhando fixo, óculos-escuros, o comparsa que o precede. E em passo ligeiro o primeiro e o segundo desaparecem por trás da coluna desse corredor-aberto que leva ao water-closet masculino.

Fiquei remoendo o honesto frango assado e até acabei de comê-lo, e ao arroz e à salada, entretanto já em segunda taça de tinto, tudo remoído imaginando ou mal-imaginando em que estariam metidos aqueles dois discretos borrachinhos, talvez num dos cubículos higiénicos, espaçosos, daquele water-closet escassamente frequentado, durante esses muitos cinco-dez minutos, quem sabe quinze, esses mesmos durante os quais eu deglutia o frango assado.

Enfim satisfeito, mas inquieto com a demora dos rapazes, chamei o patrão-empregado, que veio solícito e se dobrou em minha intenção, ouvindo o meu pedido de um café e recolhendo prato e copo consumidos. Foi quando ele se dobrava sobre mim e a mesa solícito e prestes, que os rapazes, um e o outro, assomaram por trás da coluna do corredor-aberto, regressavam de lá, do water-closet, e vinham juntos, ou seja, alinhavam-se um ao lado quase do outro, pequeno que fosse o desfasamento. Olhei-os candidamente surpreso e, sem dúvida, grato por vê-los aparecidos, assim não precisava de imaginar mais nada — estavam ali.

O patrão-empregado dobrava-se sobre mim e a mesa, e eu via-os para além da sua figura dobrada, iam indo. E para além do patrão- empregado, ocupado no serviço, vi que eles se falavam: o primeiro, cabeça-rapada, claramente-subrepticiamente comentava ao outro sobre mim, o outro acenou um vago entendimento, eu recostei-me na cadeira e olhei-os atentamente-neutramente; marchavam ambos ligeiros, camuflados por óculos-escuros, e entendiam-se, o que não fora óbvio o tanto-antes quando tinham entrado. E foram-se, o patrão-empregado foi-se trazer-me o café, o tempo flui.

A história acaba-se, todas as histórias vão acabar, daí o interesse ou desinteresse delas. Os miúdos que nela reporto eram giros, exequíveis, tipo boa-onda no fluxo corrente, mas tipos escusos, quem sabe metidos em que armários, mesmo que aqui-hoje os armários se venham tornando dispensáveis.

Interpretação à medida do tempo-que-passa ou dos modos conectivos actuais:

estes jovens não-propriamente-miúdos teriam agendado um encontro-cego por qualquer das redes-sociais em uso mas, não se conhecendo em-pessoa, estavam, ou estava o rapaz cabeça-rapada em suspenso sobre o carnal aspecto do seu interlocutor virtual. Da primeira vez que o primeiro me olhou, sem óculos-escuros, seria para saber se era eu aquele que ele desconhecia, aquele que logo depois encontrou algures no Centro Comercial, e que de algum modo sinalizado reconheceu enquanto esse que teria sido o seu correspondente, em rede-social, para um encontro hot ali àquela hora ociosa, começo da tarde.

 

07.08.2014 / 04.10.2014

António Sá

Histórias desautorizadas/30: Adolescentes assim

Adolescentes assim 

Várias vezes vi, passando na avenida, sentando-se na mini-esplanada de um mini-café, as três figuras cujo retrato vou tentar fazer de modo a que as palavras se visualizem.

Mas falta-me a coragem. Como retratar estas figuras, como escrever este texto de nada sobre coisa nenhuma, excepto quem esteja? Desisto de escrever, e logo me digo que tenho de o escrever, tão nítido me surge.

Então assim três figuras. Duas humanas, outra não, mas têm de ser vistas as três num só lapso, num relance.

Um casal adolescente, rapaz e rapariga, e um cãozinho. Casal quase menos que adolescente enfim; e cãozinho quase-menos.

O rapaz e a rapariga só podem ter sido feitos um para o outro neste mundo. Ambos magros, baixos, pálidos de uma palidez de lençol de linho. Magros mas de uma magreza mais nutrida que esquálida. Baixos, ele de pouco mais de um metro e sessenta, ela de quase um metro e sessenta. Que idade têm? Vou crer que entre os dezasseis e os dezassete, talvez dezoito. Quando caminham vão sempre de mão dada. Quando se sentam na esplanada, dão-se as mãos por sobre a mesa metálica verde-garrafa invernosamente fria. Quanto à palidez: a dela coesa, perfeita, uma pele sem a menor imperfeição visível; a dele mais palidamente branca, com visíveis marcas, nas têmporas e maçãs do rosto, de um antigo virulento acne.

Não falam quase um com o outro. Só para decidirem se entram ou não no mini-café, ou se não entram e se sentam na exígua esplanada de só duas mesas, imunes ao frio. Usam roupas escuras convencionalmente juvenis, soltas, ligeiramente largas.

A terceira figura é o pequeno cão de uma brancura impecável, cão à beira do minúsculo, de entre cuja brancura esplende o vermelho da coleira. Coleira vermelha presa à trela vermelha que a rapariga segura. E é tudo o que se diga desta figura animal: a sua conduta é tão atenta aos donos e assisada que, de vê-la, há-de-se reflectir sobre se é de nos conduzirmos assim tão submissos na vida.

E feito o retrato destes por ora belos seres-em-vida, o conto acabou. Várias vezes os vejo, passando na avenida, sentando-se na mini-esplanada do mini-café, o cãozinho de coleira vermelha, assente sobre as patas traseiras, sob a mesa de metal verde-garrafa.

 

05.02.2014

António Sá

Histórias desautorizadas/29: Intramovimentações

Intramovimentações 

1. Figuras:

     Três negros.

Não uniformemente negros. Um escuro, outro menos, outro menos.

 

2. Especificações:

O maior deles, sob todos os aspectos maior, negro-retinto, enorme estômago proeminente, pernas grossas estiradas sob a mesa; outro, seguindo a gradação das cores de pele, negro-chocolate, enfiado na magreza subalterna que seria o seu estatuto em confronto; outro, o mais baixo de estatura, cor café-com-leite, pernas recolhidas sob a cadeira.

 

3. Lugar:

Havendo antes referências a mesa e por extensão cadeiras, o lugar onde esse mobiliário se dispõe é um café-restaurante, dos poucos que na cidade permanecem abertos até às onze-meia-noite conforme.

Estes três homens estão sentados numa extensão de mesa para seis lugares: o maior, retintamente recostado contra o espaldar, pernas estendidas sob a mesa, como já se descreveu; o negro-chocolate encostado à parede e retraidamente perspectivando de perfil os comparsas; o negro-leite, em sua pequenez de pernas encolhidas, enfrentando o enorme interlocutor de pose invasora.

 

4. Língua:

Falam os três um português ultra-rápido, sotaque africano, tanto e tão rápido que o idioma português soa como dialecto de uma língua africana familiarmente, quase cripticamente utilizada.

 

5. Intramovimentações:

Estes três homens falam muito e depressa uns com os outros, falar contínuo e desinquieto. Esta contínua intercomunicação suspende-se quando entra um novo cliente no café-restaurante, e eles os três miram, remiram tal novo espécime e comentam-na entre eles sub-repticiamente, amenamente senhores da situação e conhecedores de tudo o que há a conhecer no mundo.

Extinta cada nova destas novidades, recentram-se na intraconversa mais intensa, mais intracalorada. Semelha regressarem ao assunto ou assuntos mais crispantes que os fundam. Até que algum clic se produza, e as faces de todos três estejam tensas de confronto com exasperação inclusa. Aí o maior deles, mais poderoso e expansivo, lança uma âncora à deriva: “Ah, a política!”, exclamou e levantou-se íntegro e enorme. Levantou-se e saiu na direcção do W.C., e os outros ficaram apaziguados de atitude e de linguagem balbuciada e exangue. Tantos minutos depois, esse comparsa mais influente regressava à mesa. Vinha distendido, tranquilo; o rosto antes crispado alargava-se num sorriso ameno, democraticamente aplanador de divergências acaso insanáveis.

 

17.07.2013/02.10.2013

António Sá

Histórias desautorizadas/28: Um leilão

Um leilão 

Houve um leilão onde eu estive ou, se não estive, teria de algum modo estado, por efeito de memória ideada ou de sonho.

Muitos objectos me fascinavam, um a seguir a outro, no momento em que eram licitados. Fascínio até à exasperação, e tangiam-me os nervos enquanto os lances evoluíam. Quando cada um desses objectos sucessivos era arrematado, produzia-se um provisório relaxamento dessa tensão. Relaxamento de sabor amargo, uma vez que me via ultrapassado pelos acontecimentos: quanto gostaria de ter sido eu a adquirir esses objectos! O máximo da exasperação aconteceu quando uma estatueta em bronze, um hermafrodita grego no seu pedestal, desceu à posse de um rapaz meu malconhecido, imberbe impertinente.

Mas… eu tinha uma reserva de dinheiro limitada. Estava ali, ou qualquer-coisa assim, enquanto representante de uma instituição que, promovendo exposições e espectáculos nas suas diversas expressões e vertentes, beneficiava de um alívio da carga fiscal e assim lhe sobrava liquidez para ampliar o crescente fundo museológico. Nessa qualidade de representante, a minha incumbência era a de adquirir um certo quadro particularmente simbólico para o âmbito de actividades desenvolvidas por essa instituição. E agora considerava que os valores pelos quais os objectos estavam a ser leiloados eram ridiculamente baixos, montantes muito abaixo do que seria de esperar. Esta tendência confirmou-se ao ser arrematada uma belíssima paisagem campestre de grandes dimensões, obra tardo-romântica de um pintor académico-preciosista. Para minha suprema, insuportável irritação, foi mais uma vez em favor desse meu malconhecido amigo imberbe, comicamente empinado e engravatado na sua presunção artístico-empresarial, que se produziram as definitivas pancadinhas do martelo, arrematando esta belíssima obra-mestra, obra mais-que-perfeita para a decoração de algum palácio ou pousada num castelo mouro. E — o que é pior! — ele arrematava aquela obra perfeita, eterna no seu género, por um preço irrisório, tão irrisório que me sobreveio uma mortificação abissínia de tão escura, e tacteei o telemóvel, na contingência de ter de chamar o serviço de urgências, porque eu desfalecia! Ver sair aquele quadro da minha vista era como se arrancassem um naco de mim mesmo. Todo eu me contraí para superar o transe e todos os músculos me doeram, sobretudo os músculos faciais que enrijeceram e se petrificaram, e de relance atirei ao malconhecido um olhar pétreo, mortífero.

O lote seguinte foi apresentado: dois pequenos quadros a óleo, de que o leiloeiro assinalou a raridade. Segundo ele reiterou, não haveria, nas próximas muitas décadas a vir, ocasião de comprar qualquer trabalho daquele pintor, já falecido e de escassa obra, e tudo já pertença de museus, fundações, instituições bancárias… Eram duas composições abstractas, cromatismos intensos, formas abruptas flutuando sobre manchas indistintas, visões incertamente geométricas. Adorei à primeira vista aqueles dois objectos, que se respondiam um ao outro como a mão esquerda responde à mão direita. Impunham-se um ao outro, construindo uma realidade recíproca. Desde o início da licitação, fui rebatendo os lances de modo obstinado, mas não me obstinei demasiado, visto que os licitantes esmoreciam, só o imberbe impertinente insistiu em comprar aquele conjunto raro. Eu rebati, rebati, e quando o valor a pagar era já considerável o rapaz malconhecido não deu sinal e, no momento seguinte, vi-me comprador daquelas excelentes abstracções. Eram, reincidiu o licitador, dois excelentes Rudolf Ehrenstein, génio maior da abstracção. E eu era o comprador afinal! Remoía-me, subterraneamente, mas pensá-lo-ia mais tarde, a urgência-para-mim em justificar a compra daqueles dois pequenos quadros, que monetariamente me inviabilizava a compra do quadro que eu estava incumbido de comprar, esse quadro significativo e simbólico para a instituição de que eu era ali o representante. Entretanto extasiei-me fixando uma última vez uma composição e outra, belíssima dupla de quadros, manchas de abstracção única, irrepetível, enquanto os seguranças os retiravam. Repeti mentalmente o vibrante nome do pintor, Rudolf Ehrenstein, nome que não me era familiar, por muito que rebuscasse na memória de nomes de grandes pintores, mas que o leiloeiro pronunciara rotundamente, com a reverência que se reserva aos pintores raros, tão raros quão é raro o génio artístico. Congratulei-me por ter ousado aquele rasgo de voluntarismo e decisão. Confrangia-me o ter ficado sem os fundos necessários para a aquisição da obra que fora incumbido de comprar, mas considerei que a aquisição feita era, sem favor, aquilo a que se chama uma pechincha — comprara dois Ehrenstein pelo preço de outro quadro qualquer! Não deixa de me inquietar, retrospectivamente, o pouco empenho manifestado pelos licitantes nesta aquisição — inclusive a desistência do imberbe impertinente. Inquieta-me tanto desinteresse quando afinal se trata de duas peças raras, de uma inexplicável beleza, ao mesmo tempo capazes de caracterizarem um período da pintura universal e de se singularizarem enquanto experiências artísticas únicas.

26.11.1990/14.06.2013

António Sá

Histórias desautorizadas/27: Um miúdo

Um miúdo 

Entrou, fulminou-me um olhar não-sei-quê e breve, de semi-perfil quanto às posições relativas. E ficou de cabeça um pouco baixa, só o suficiente para olhar um ponto algures na parte inferior do varão central da carruagem. Estávamos no metro, eu ao fundo, encostado a um espaldar e fazendo por ler os momentosos últimos desenvolvimentos do desaire financeiro cipriota; ele assim entrado e perfilando-se cabisbaixo frente ao varão metálico, com o olhar fixo em algum ponto aí existente ou não, em abstracto. Segurou-se ao varão com a mão direita, quando a composição partiu.

Um miúdo dos seus treze-catorze anos, pouco mais de um metro e sessenta, estatura ensacada num kispo azul-mortiço, pantalonas escuras bem-mal enjorcadas, e nos pés uns ténis ventilados branco-enegrecidos pelo uso. Desproporção inabitual num miúdo entre corpo e cabeça: corpo sem linhas, cabeça grande implantada num pescoço curto. O rosto oferecido era longo mas ternamente modelado e juvenil, imberbe pele sedosa de tons róseos ou de saúde ou de afogueamento, cabelo negro-liso em franja desfeita. E desde aquele primeiro olhar afogueado e breve, nunca mais o levantou, maníaco-fixo no qualquer ponto abstractamente existente no varão metálico. Para este retrato falta dar conta da mochila pesando-lhe a figura. Assim como esteve segurando com a mão direita o varão, com a esquerda em riste e na vertical dos dedos, aplicava-os contra o varão, alinhados e exangues da pressão. Explicando isto ainda: aplicava a polpa do indicador, do médio, do anelar e do mindinho, que praticamente eram todos da mesma medida, aplicava-os aplicadamente, alinhados na vertical, contra o mesmo varão que o seu olhar com fixidez fixava. A polpa dos dedos assim aplicada criava uma zona exangue pela pressão exercida, e logo uma zona rósea onde o sangue se concentrava. E concentrado o fácies, transparecia um sofrimento inexplicado e remoído. Assim esteve o percurso e eu, esquecido de Chipre, olhava aquela postura fixa e face concentrada em pensamentos juvenilmente crispados.

Pressentindo o meu olhar sobre ele, mas sem manifestar incómodo, num só momento ele rodou noventa graus em redor do varão, ficando assim de espaldas contra mim, que não lhe vi mais o rosto, só a bossa da mochila e as calças-saco bem-mal enjorcadas. Mas via-lhe a mão esquerda, cujos dedos voltou a aplicar conscienciosamente, do modo atrás descrito, contra o varão.

Depreendi, porque sempre há que interpretar os seres vivos, que era um miúdo humilhado, e senti uma profunda pena por ele e por mim, também humilhado pelas circunstâncias alucinatórias de um mundo desatado, incongruente. Interpretei, sobreinterpretei: seria uma vítima de bullying por parte dos colegas, talvez, a sua figura desairada assim o propiciava; seria um caso de violências parentais ou, hipótese acaso menos cruel, filho de progenitores desempregados, em dificuldades económicas, desavindos, separados… Pensei em falar-lhe, dar-lhe ânimo para a tanta vida ainda que a sua pouca idade prefacia, mas desisti da ideia, tinha de sair, estou a sair já nesta estação, olho de lado, vejo-o fixo no varão, polpa dos dedos da mesma medida exangues contra o varão.

Tenho pena, tanta pena de tudo. Nada digo entretanto. Nada vou dizer. Suponho que tudo o que dissesse seria só estúpido.

28.03.2013

António Sá

Histórias desautorizadas/26: Uma voz no metro

Uma voz no metro 

Ensimesmada espera do metro seguinte, a desoras na noite. Está a ouvir-se uma voz, vem chegando insinuante juntar-se aos pensamentos que cada um vai imaginando. Sussurro próximo ao ouvido, não perturba a corrente de consciência. Oscila entre o suspiro e o lamento d’alma, talvez penada. Assim soa de início, vinda das coisas, colada ao ambiente subterraneamente húmido, chuvoso dia de outono. E vai crescendo, na sua oscilação tonal. Voz oscilante que cresce e se quebra e cresce outra vez. Procuro-lhe a proveniência: percebo que não vem das coisas, é uma voz humana, vem de algum dos raros utentes do metro ali à espera. E sim, detecto-lhe a origem: vem de uma mulher que avança vagarosa na plataforma oposta, para lá do fosso dos carris. Vagarosa e oscilando o corpo no avançar reflexivo, como num bosque romântico um pensador oscila um tanto o corpo para a direita e para a esquerda, e avança sempre no seu meditar. A oscilação desta mulher, junto com o seu meditar, acontecem em voz alta, que cresce num insidioso canto, mais audível na acústica da estação de metro semidevoluta. Cresce agora de um modo seguro, um canto de culto evangélico soando firme, uma toada predicativa.

É uma mulher negra que canta, corpo volumoso, figura ancestral de negra vestida de um vestido longo, que oscila com o oscilar do corpo. Vestido longo até aos tornozelos infantis, que se afundam numas sapatas sem idade. Ela canta enquanto avança nesse avançar oscilante até ao fundo da plataforma, dá meia-volta e segue devagar em sentido inverso, cantando e balançando ao andar um saco de plástico prenhe dos seus bens. Avança e canta cada vez mais segura do seu canto e voz mais crescida e modulada, canta visando os seis-sete passageiros, eu-incluído, que na plataforma oposta assistem hipnotizados ao crescendo espectacular da voz que canta. Canta apenas, nessa plataforma que é toda sua, seu palco vazio de outros performers que não ela, que canta. A sua voz na catedral românica da estação de metro é agora plena, assusta de tão cheia e poderosa. É a voz exponencial de Mahalia Jackson que canta a desoras no metro de um país em resgate financeiro, e a melodia soa como A city called Heaven.

Chegada ao outro extremo da plataforma, ela dá meia-volta e refaz o percurso em sentido contrário, cantando, mas pára um momento, visando os espectadores que do outro lado da linha a observam. Não canta já, avança um pouco, visa solene o seu público. Todo o seu movimento e figura são naturalmente cénicas, como se o habitat desde sempre fosse o palco e esse palco a plataforma de uma estação de metro. Agora ela fala, voz poderosa que ressoa em todos os recantos subterrâneos, e o seu discurso é contra o luxo, a corrupção, um discurso abstracto, amargo, contra os que tudo têm a mal e tudo decidem por mal, falando manso que é tudo para bem do povo. Em algum momento pareceu não ter mais nada a acrescentar, seguiu o seu curso lento ao longo da plataforma, cantarolou e logo, voltando-se para o público indefectível por força das circunstâncias, acrescentou uns prenúncios apocalípticos para o mundo, e entretanto com o característico ruído de ferragens uma composição deu entrada na plataforma do meu lado, e eu e os outros poucos utentes-espectadores entrámos nas carruagens e seguimos viagem.

20.12.2012/13.01.2013

António Sá

Histórias desautorizadas/25: Os meus dias livres

Os meus dias livres 

Ocupo os meus dias livres principalmente com o desporto e uso a escrita como procedimento para reter as imagens mentais de que a vida se faz. Recorrendo a esta, espero dar uma boa ideia daquela minha preferência pelo desporto nos parágrafos seguintes.

Adoro os desportos! Todos os desportos, aliás: os que existem e os que venham a existir. Não os pratico a todos, será por falta de oportunidade, mas todos os que posso praticar pratico-os a qualquer hora do dia e da noite, incluindo as madrugadas.

Mas vamos por partes: a perspectiva de um dia livre confunde-me, assim faço sempre por preenchê-lo com um programa cerrado, de modo a que todos os minutos — e mesmo os segundos — obedeçam a desígnios previamente determinados. Assim, por exemplo, inscrevo-me numa corrida colectiva de dez quilómetros, o que me permite testar os progressos no meu jogging ocasional. Não sou eu que me inscrevo, inscreve-me uma jovem colega de trabalho, dada a praticar jogging e a incentivar outra gente a correr junto com ela, em treinos e competições possíveis.

Combinamos encontrar-nos dois dias antes, para uma caminhada preparatória e descontractiva, também para que ela me entregasse o kit que incluía o chip de controlo e a t-shirt com número de concorrente e sigla do evento, tudo incluído no preço de inscrição. Mas sobre esta desportista impendem múltiplas incumbências e responsabilidades familiares e profissionais, por isso via-se obrigada a declinar a caminhada, tão estrito o seu tempo e, pela mesma falta de tempo, ainda não fora à sede da entidade organizadora para recolher os kits meu e dela. Iria levantá-los no dia seguinte, e como entretanto não teríamos ocasião de nos avistar, ela entregar-mo-ia na própria manhã da corrida, quando nos reuníssemos meia hora antes do início da mesma.

Na noite anterior, fui conviva de um jantar de aniversário que se prolongou até perto da meia-noite, e só cheguei a casa por volta da uma da madrugada. Preocupei-me então em organizar a bolsa-de-cinturão com os objectos imprescindíveis: chaves, lenços de papel, etc., mas dormi pessimamente, porque o indomável bacalhau do jantar resistiu quanto pôde a ser digerido, ao que se juntou a preocupação de me levantar inabitualmente cedo, sem estar seguro de que o meu telemóvel respondesse correcto no tempo às minhas tentativas maldispostas de o programar.

Quase sem dormir, não precisei de acordar porque já o estava, apressei-me a sair de casa para o metro e logo o comboio que me levaria à grande concentração de dez mil matinais corredores, mas antes telefonei à colega para ter a certeza de que ela acordara, se preparava e não me falharia. E sim, ela preparava-se, e estaria no ponto de encontro previsto cerca de meia hora antes do início da corrida.

Já a entrar no comboio para um trajecto de vinte minutos, e prevendo chegar mais de um quarto de hora antes do combinado, chamei-a de novo pelo telemóvel a dizer a hora a que devia chegar, nove e um quarto: ela confirmou que chegaria pelas nove e meia, e nisto o telemóvel passou a dar um sinal intermitente, a que não prestei atenção no imediato, até perceber que era a bateria que falhava, e na rapidez última da comunicação verbal, a palavra “plataforma” foi a preciosa palavra, palavra-chave dita por mim e por ela, antes que o telemóvel colapsasse: encontrar-nos-íamos na plataforma da estação, vindo ela num comboio em sentido inverso ao do meu. Ainda fiz uma última desesperada tentativa de ligar, mas as leis que regem a vida das cargas de bateria são inexoráveis e o que obtive foi a frustração da impossibilidade de conectar-me, mas parti confiado e pelas nove e um quarto estava na plataforma combinada. Assisti quase de seguida à chegada de um primeiro comboio vindo em sentido inverso mas, na débil perspectiva de ver a colega tão cedo, sentei-me apenas no rebordo do espaldar de um dos bancos metálicos, e observei, rodando pendularmente a cabeça da esquerda para a direita e vice-versa, as hordas de corredores que surdiam em massas compactas, num ímpeto desportivo, de todas as portas automáticas. E nada de a ver, mas claro eu já o supunha.

Um quarto de hora mais de espera, manhã amenamente fria, céu cinza-escuro, infrachuva contínua. Distraía-me olhando a estrada em frente, para lá da vedação de arame que isolava a linha de caminho-de-ferro, essa estrada já vedada ao trânsito e onde os atletas de topo, potenciais vencedores dos dez quilómetros, faziam exercícios de aquecimento distendendo braços e pernas, saltando e marchando ritmicamente de um lado para outro ao longo da rua, cada um exibindo seus equipamentos, expectáveis uns, extravagantes outros. Música pump num débito de fazer estremecer toda a matéria sólida no meio-quilómetro arredor, interrompida estrategicamente por duas vozes juvenis alternando, uma masculina outra feminina, a estimular os milhares de atletas já presentes, a anunciar as horas e orientar os procedimentos para o ingresso na área circunscrita, também a enunciar reiteradamente o nome do autarca promotor e das entidades e empresas patrocinadoras.

Às nove e trinta e cinco dá entrada a composição que traria dentro dela a colega desportista e com ela o kit que me daria acesso à área restrita aos inscritos. Levantei-me, postando-me de pé sobre o assento do banco, de modo a tornar-me o mais visível que pudesse. E observei, de pé sobre o banco, rodando pendularmente a cabeça da esquerda para a direita e vice-versa, as hordas de corredores que irrompiam de todas as portas abertas num movimento irreprimível, sendo-lhes em absoluto impossível estarem mais um segundo no espaço confinado das carruagens. Saíam e olhavam-me, eu de pé em toda a estatura sobre o assento do banco, rodando pendularmente a cabeça, com ansiedade. Olhavam-me divertidos uns, surpreendidos outros de verem alguém tão perdido a perscrutar cada rosto para descobrir de entre os milhares de rostos da multidão o rosto salvador da colega com o kit imprescindível para o acesso à área dos inscritos. Mas escoado até ao último desportista, esse rosto não se fez ver entre os tantos rostos vistos em séries tão aceleradas que, na minha mente, ficou impresso o arquétipo do Rosto modelando a arquitectura de todos os rostos reconhecivelmente humanos.

Saltei do banco para a plataforma agora vazia, percorri-a num passo desesperado de uma ponta a outra e vice-versa, enfim sentei-me amargando aquela falha inexplicável: ter-se-ia ela atrasado nos preparativos e perdido o comboio? Era a hipótese mais viável que me punha, passeando mais uma vez pela plataforma onde três-quatro passageiros apareciam entretanto. Restava-me esperar pouco resignadamente outro quarto de hora por essa próxima composição. Sentava-me, levantava-me, dava um giro, sentava-me outra vez distraindo-me a observar a multidão de atletas que ocupara a estrada paralela, fazendo exercícios de aquecimento ao som ainda mais alto da música e das frases de estímulo estridulamente gritadas ao microfone enrouquecido pelos animadores que dançavam num estrado elevado. E uma informação por eles gritada fazia-me suores frios, atendendo a que os haja enquanto secreção física: é que às nove e cinquenta e cinco, cinco minutos antes do tiro de partida, que seria dado às dez horas, fechavam-se os acessos aos participantes. Afigurou-se-me que estaria em vias de ter a minha participação inviabilizada!

Esperei, em estado de agonia mais que de desesperança, a entrada do comboio seguinte que, segundo o previsto, chegaria às nove e cinquenta e cinco, justamente sobre o minuto do fecho dos acessos! A agonia era uma simbiose de noite maldormida, malestar digestivo, frio e humidade matinais, ansiedade pela espera e entrevisto desencontro. Pensava, nesta agonia, que ainda a visse chegar neste último comboio ainda acaso útil. E quando parou na estação, pus-me, como fizera antes, de pé no banco metálico. Em quase-desespero de causa, girava a cabeça da esquerda para a direita e vice-versa, pescoço esticado, como numa dança egípcia, perscrutando cada rosto, em cada um via fantasmaticamente reconhecível o rosto da colega omissa, mas logo a fantasia se esfumava, desconhecia cada rosto, ela não se fazia aparecida, e quanto não a via tanto mais enfrenesiado o meu girar egípcio do pescoço da esquerda para a direita e vice-versa. E os atletas que saíam, em menor número e num ímpeto já menos massivo mas mais apressado, por retardatário, olhavam-me na sua pressa e entusiasmo desportivo e lançavam-me:

— Dança! Dança!

Surpreenderam-me a informalidade e equívoco da exortação com que me incitavam a dançar, sendo que eu ia de uma ponta a outra do banco, girava a cabeça num agónico delírio ritual, e só o que queria era ver aparecida a colega, que me providenciaria o kit sem o qual eu não poderia participar na corrida, e estava-se no último minuto para ter acesso à pista!

De envergonhado, perdi a energia para me virar e revirar nessa pelos vistos dança em que estava, sem me dar conta.

Fiquei visando os rostos dos retardatários desportistas chegados nesse último comboio viável, e de entre esses rostos todos me pareceram o da minha colega, mas logo via que não, desiludido na busca do rosto que, para além do arquétipo de rosto humano, consubstanciasse o rostos singular dela.

A partir daqui a história do dia ganha contornos de história subsidiária: esperei, na plataforma, o tiro de partida, que seria dado pelo autarca muito anunciado e promovido. A música, que não pudera ser mais ensurdecedora, nem os gritos dos animadores, tudo isso silenciou. No silêncio de efeito prenunciador, efeito dos grandes silêncios, um tiro pífio mal se ouviu, e as massas de atletas partiram em intermináveis vagas. Abatidamente sentado no espaldar do banco metálico, assisti a esta partida extraordinária, e silente lamentei a minha sorte, como Job terá lamentado a sua, a crer nas escrituras.

Sem resto de racionalidade que me programasse, mudei de plataforma e apanhei um comboio para a praia, ao longo de cujo pontão, em passo autómato de corrida fiz sozinho três-quatro quilómetros, de uma vila costeira a outra. Chegado a esta última, passei alguma hora num café, abrigado da poalha, escrevendo notas para este relatório, sem que me abandonasse o malestar conjunto da frustrada competição, da noite maldormida e da digestão infinita do jantar anterior.

Almocei, por força da hora que marcava hora-de-almoço, num restaurante popular, e regressei a casa, terrivelmente agoniado deste almoço caindo sobre o jantar arcaico. Sentei-me a fazer zapping até parar, sem forças para clicar mais, num C.S.I. New York mas, sempre agoniado por efeito do almoço e do excesso de emoções desportivas, via as imagens descosidas de tudo o que fosse sentido, e talvez tenha de ser assim, nada deva fazer sentido na surrealidade abstracta das imagens produzidas sobre estereótipos de crimes e respectivas investigações. De repente um revolver do estômago ao esófago, indício de bolsar futuro, fez-me levantar e correr à banheira, sobre cujo rebordo me debrucei e, em vómitos convulsos, vomitei sucessivamente almoço recente e jantar remoto. Depois deste esforço, sem nada dentro do corpo, nem sólidos nem líquidos, nem sangue sequer, porque o coração não batia, estava transformado num grande boneco de pano caído de bruços, cabeça pendida, braços soltos, no rebordo da banheira, desejando morrer, de tão mal.

Espero que este texto possa dar uma ideia de como despendo os meus dias livres.

Novembro 2012 / Janeiro 2013

António Sá

Histórias desautorizadas/24: Não-conversas

Não-conversas 

Há muitos modos de se estabelecer uma não-conversa. A utilidade de tal tipo de comunicação é certificarem-se os intervenientes de que não havia nada a dizer.

Atendo o telemóvel, chama-me um amigo distante de longa data e pergunta-me à queima-roupa se estou em casa. “Não”, disse eu, “estou num café”. Eram cinco-e-meia-seis de uma tarde instável de outono, onde me instalara, na tarde e no café, a reflectir nas crises financeiras de todos os tempos. Ele perguntou-me falando rápido, quando é que eu ia pra casa, o que me perturbou primeiro e logo me escandalizou — estava ele a querer ordenar sem mais os meus passos no dia? Condescendi em responder-lhe, dizendo que iria para casa mais para o fim-da-tarde. Sempre apressado, explicou que não me explicava o que pretendia para não gastar dinheiro com a chamada, queria telefonar-me para casa, porque telefonando de telefone fixo para outro fixo não gastaria nada. E sempre apressado explicou que queria convidar-me para um evento, e agora desligava, ligava-me mais tarde pra casa, agora tinha de sair, tinha de desligar, telefonava-me às seis-seis-e-meia para casa. Eu informei-o que só estaria em casa por volta das sete-sete-e-meia, e ele reparou desolado que a essa hora não dava, porque estaria numa sessão de… (não entendi). Aí eu disse para me ligar depois dessa tal sessão, e ele respondeu ’tá bem, e agora desligava, telefonava então mais tarde, tinha de desligar agora.

Assim se processou esta não-conversa, e foi das mais efectivas. Passaram-se entretanto largas semanas sem que ele ensaiasse comigo outra qualquer conversa destas.

02.12.2012

António Sá